*Sêmia Mauad/ Agrofrequencia
A confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o quarto mandato provocou uma reação imediata e de forte volatilidade no mercado financeiro internacional. Na noite de domingo, dia 25 de outubro, logo após a totalização dos votos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os contratos futuros e opções mensais do Real negociados no CME Group (Chicago Mercantile Exchange) registraram uma queda expressiva de 10,17%.
Nos momentos de maior estresse do pré-mercado, a moeda brasileira chegou a perder até 12% de seu valor frente ao dólar norte-americano.
A reação contrasta com o otimismo observado no último pregão antes da votação. Na última sexta-feira, dia 23 de outubro, o dólar à vista havia encerrado em queda de 0,97%, cotado a R$ 4,9896 para venda, impulsionado pela expectativa do mercado financeiro em relação a uma possível virada do candidato de oposição, senador Flávio Bolsonaro (PL). Movimento semelhante ocorreu após o primeiro turno, dia 4 de outubro, quando o dólar recuou 4,12% e fechou a R$ 5,00 na segunda-feira subsequente, dia 5 de outubro, refletindo a aposta dos agentes econômicos em uma guinada na política fiscal do país.
CONSEQUÊNCIAS PARA OS PRODUTORES RURAIS
A depreciação do Real no mercado futuro e a projeção de um dólar mais alto no mercado físico trazem um cenário de incerteza e dupla dinâmica para o agronegócio de Mato Grosso e do Brasil.
A alta do dólar encarece diretamente os principais custos da lavoura para as próximas safras, como fertilizantes, defensivos agrícolas, peças de maquinário e óleo diesel. Como a maior parte dos adubos utilizados no país é importada e cotada em moeda norte-americana, a perda de valor do Real pressiona o custo por hectare do produtor rural.
Embora o dólar valorizado beneficie a receita das exportações de grãos (soja e milho) e carne bovina no curto prazo, a volatilidade extrema e a elevação dos custos operacionais reduzem a margem líquida do agricultor, especialmente daqueles que ainda não travaram os custos da safra futura em operações de barter ou contratos a termo.
A reação negativa do mercado eleva a curva de juros futuros e a percepção de risco-país. Com isso, os financiamentos privados (como Cédulas de Produto Rural – CPRs e emissões de CRAs) e as taxas do Plano Safra tendem a ficar mais caras, restringindo o acesso ao capital de giro no campo.
IMPACTOS PARA A POPULAÇÃO EM GERAL E CONSUMIDOR FINAL
Para o cidadão comum e o comércio das cidades do interior e da capital, a alta repentina do dólar traduz-se em repasse de preços e pressão inflacionária.
Derivados do trigo (pão, macarrão), óleos vegetais, carnes e produtos industrializados tendem a sofrer reajustes nas prateleiras dos supermercados, já que grande parte dos insumos agrícolas e da logística de transporte acompanha a cotação internacional do câmbio e dos combustíveis.
Com o barril de petróleo e os derivados precificados em dólar, a pressão sobre os preços do diesel e da gasolina se intensifica. O aumento no frete rodoviário impacta em cascata o custo de vida nas cidades.
A desvalorização cambial reduz a capacidade de compra da população, encarecendo eletroeletrônicos, vestuário, medicamentos com insumos importados e viagens, além de forçar o Banco Central a manter a taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados para conter a inflação.