*Sêmia Mauad/ Agrofrequencia
A Ruiz Coffees, uma das maiores produtoras de café do Brasil, ingressou com pedido de recuperação judicial na Vara Regional Empresarial de Conflitos de São José do Rio Preto (SP). A gigante do setor cafeeiro acumula um passivo total que alcança a marca de R$ 1,6 bilhão.
O pedido ainda aguarda o deferimento formal da Justiça. No entanto, em decisão cautelar, o juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf concedeu a suspensão de todas as execuções de dívidas do grupo pelo prazo de 30 dias (standstill). A liminar proíbe os credores de declararem o vencimento antecipado dos contratos e blindou a safra do grupo: as sacas de café colhidas foram declaradas bens essenciais à atividade, impedindo que credores extrajudiciais realizem arrestos ou penhoras do grão para a quitação de débitos.
Como medida preliminar, o magistrado nomeou a Compasso Administração e Consultoria Empresarial para realizar uma constatação prévia. O procedimento vai checar a documentação contábil e as condições reais de funcionamento das empresas antes de decidir se defere o processamento da recuperação judicial ou decreta a falência.
O QUE LEVOU A GIGANTE DO CAFÉ À CRISE?
No pedido protocolado à Justiça, o grupo alegou que a combinação de altas taxas de juros, elevação acentuada dos custos financeiros, intempéries climáticas nas regiões produtoras e a crescente restrição de liquidez no mercado de capitais sufocou o fluxo de caixa da companhia ao longo das últimas três safras.
A situação financeira se agravou devido à concentração de vencimentos de operações estruturadas de crédito que o grupo passou a acessar intensamente a partir de 2021. Caso o processamento da recuperação seja deferido após o laudo de constatação prévia, a Ruiz Coffees terá um prazo de 60 dias para apresentar o seu plano detalhado de reestruturação aos credores.
MAPEAMENTO DO PASSIVO DE R$ 1,6 BILHÃO E CREDORES
Do montante total de R$ 1,6 bilhão devidos, o grupo informou a seguinte divisão:
-R$ 775 milhões: Débitos sujeitos à recuperação judicial.
-R$ 820,1 milhões: Débitos não sujeitos ao processo por estarem atrelados a garantias reais pesadas, como alienação fiduciária.
A radiografia das dívidas submetidas ao processo revela o peso sobre fornecedores e bancos:
-Credores Quirografários (sem garantia real): R$ 614 milhões.
-Credores com Garantia Real: R$ 160 milhões.
-Micro e Pequenas Empresas: R$ 676,7 mil.
-Débitos Trabalhistas: R$ 230,8 mil.
Entre os maiores credores do grupo cafeeiro figuram a Caixa Econômica Federal (R$ 130,8 milhões), a Vert Companhia Securitizadora (R$ 109,3 milhões) e a Cooperativa de Crédito Sicoob Unicentro (R$ 77,9 milhões).
ABRANGÊNCIA DO GRUPO RUIZ COFFEES
O pedido de recuperação judicial reúne tanto o braço corporativo e comercial quanto o patrimônio pessoal dos fundadores. Estão incluídas no processo as empresas:
-JRF – Ruiz Holding, Administradora e Participações;
-Ruiz Coffees Armazéns Gerais;
-Ruiz Comércio, Indústria e Torrefação de Café;
-Agropecuária JBP, Agropecuária Ruiz e Agropecuária JRF;
-Auto Posto Central Bálsamo;
-Os produtores rurais João Ruiz Lourenço, João Ruiz Lourenço Filho, Nathalia Ruiz Lourenço Petinelli e Elieth Ruiz Lourenço.
O Grupo Ruiz Coffees atua com o cultivo de 7,5 mil hectares de café distribuídos em propriedades nos estados de Minas Gerais e Bahia. A infraestrutura logística do grupo conta ainda com um complexo de armazéns gerais com capacidade de estocagem para 160 mil sacas no município de Piumhi (MG).