*Sêmia Mauad/ Agrofrequencia
A indústria de processamento e produção de biocombustíveis consolida, ano a ano, a posição como um dos principais motores econômicos e industriais de Mato Grosso. Impulsionado pela expansão das plantas de milho e cana-de-açúcar, o setor recebeu R$ 27 bilhões em investimentos privados entre 2017 e 2025, com a projeção de aportar outros R$ 6,8 bilhões até 2028 em novas ampliações e implantações de usinas pelo estado.
Os dados integram um levantamento inédito do Observatório de Mato Grosso, vinculado à Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (Fiemt), em parceria com o Sindicato das Indústrias de Bioenergia de Mato Grosso (Bioind-MT), que traça o raio-x da industrialização das matérias-primas agrícolas mato-grossenses e o impacto direto do segmento nas finanças públicas.
A análise demonstra a rápida evolução da receita pública gerada pela atividade no território estadual. Em 2025, o setor bioenergético associado registrou uma arrecadação de R$ 3 bilhões em Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). No mesmo período, o montante concedido em incentivos fiscais somou R$ 1,9 bilhão, resultando em um saldo positivo direto de R$ 1,1 bilhão para os cofres estaduais. Essa participação do etanol na receita total de ICMS do estado saltou de 4% em 2019 para 12% em 2025. O crescimento da arrecadação do segmento atingiu a marca de 627%, enquanto a concessão de incentivos registrou aumento de 231%. No acumulado entre 2020 e 2025, o setor gerou R$ 10,7 bilhões em ICMS estimado contra R$ 6,5 bilhões em benefícios tributários concedidos, o que comprova que, na prática, para cada R$ 1 disponibilizado em incentivo fiscal, as empresas realizaram R$ 4,10 em investimentos privados.
A relevância das políticas de estímulo industrial defendidas pelas entidades do setor também ficou evidente em uma simulação desenvolvida pelo Observatório da Fiemt. O estudo apontou que, caso o Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso (Prodeic) não tivesse sido ampliado e a produção permanecesse estagnada nos níveis registrados em 2019, a arrecadação de ICMS da atividade seria 67% menor em 2025, o que representaria uma perda de R$ 2 bilhões na arrecadação do Estado.
Apesar do forte avanço produtivo, a distância geográfica entre Mato Grosso e os principais centros consumidores do país segue como o principal gargalo da competitividade do etanol mato-grossense. Como grande parte do volume produzido é escoado para a região Sudeste, os custos logísticos impactam fortemente as planilhas das empresas.
Dados do Bioind-MT mostram que os gastos com fretes interestaduais alcançaram aproximadamente R$ 2,8 bilhões em 2025, valor que supera o montante total de incentivos fiscais recebidos pelas usinas no mesmo período. Diante desse cenário e da concorrência de estados vizinhos como Goiás e Mato Grosso do Sul, que possuem mecanismos agressivos de atração de investimentos, o setor reforça a necessidade de manter políticas estaduais de incentivo à industrialização.
Atualmente, o Bioind-MT representa 13 empresas operando no processamento de milho e cana-de-açúcar em Mato Grosso. Além da produção de etanol anidro e hidratado, o parque industrial converteu a safrinha em uma ampla linha de co-produtos de alto valor agregado para o agronegócio, incluindo açúcar, óleo de milho, biogás, biometano, energia elétrica obtida a partir de biomassa e os grãos secos e úmidos de destilaria (DDG e DDGS), amplamente utilizados na nutrição animal para impulsionar a pecuária intensiva da região.